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VIOLAB entrevista Vitor Garbelotto

 

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Como aconteceu o seu interesse pelo violão?

VITOR

Quando eu tinha nove anos, meu irmão começou a aprender violão na escola e um dia apareceu com um violão lá em casa. Me apaixonei imediatamente! Pedi que ele me ensinasse a tocar, e depois de muito insistir ele me ensinou a ler aqueles carimbos de acordes que vinham nas revistinhas de banca. Meu critério pra escolher o repertório nessa época era o número de pestanas que tinha na música (risos). Eu lembro até hoje da minha euforia quando eu consegui tocar a minha primeira música do início ao fim! Faz quase trinta anos, mas essa lembrança é tão viva que parece que foi ontem!

Aos doze anos comecei a fazer aulas na minha cidade, Criciúma, com o Fabian Alves Batista, que era professor de um amigo meu. Lembro de um dia (alguns meses após eu começar as aulas) que o Fabian estava escrevendo no pentagrama. Foi um momento marcante pra mim. Imediatamente eu falei pra ele: "É isso! É isso que eu quero aprender a fazer!". Nessa época, eu queria seguir a profissão do meu pai, a odontologia, e ele (o Fabian) sabia disso. Ele me disse: "Olha, pra você aprender mesmo isso, você vai ter que estudar música de verdade, não vai dar pra ser dentista", e eu, no auge dos meus doze anos falei: "Então eu vou fazer música!".

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Mas você chegou a fazer medicina, não foi?

VITOR

Sim. Aos quinze anos eu parei de fazer aulas de violão. Mas apesar de nunca ter largado o instrumento, fui me afastando pouco a pouco do meu sonho de ser músico. Parar de fazer aulas de música coincidiu com o momento em que comecei a estudar literatura e língua portuguesa com uma professora que morava na minha cidade, a Íris Guimarães Borges. O objetivo inicial era me preparar pro vestibular, mas enveredei por um outro caminho. Mergulhei tanto na literatura, que naturalmente transformei as aulas de redação em oficina literária. Comecei a escrever muitos textos, especialmente poemas. Já no primeiro ano dessas aulas participei da minha primeira publicação. No ano seguinte, em 1996, fui convidado pela Íris pra participar da fundação da Academia Criciumense de Letras, na qual possuo a cadeira de número quatorze. Em 1997, aos dezesseis anos, lancei o meu livro de poemas, chamado "O Reverso do Nada" onde o Professor Doutor Lauro Junkes (da UFSC) escreveu um magnífico ensaio sobre os meus textos. Na época eu não fazia ideia do que isso representava. Ou seja, a Arte, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente na minha vida, e essa passagem pela literatura me ensinou muito sobre a importância da palavra, e sobretudo do texto. De alguma maneira, consegui canalizar pra palavra toda a necessidade de expressão que eu sentia na minha adolescência.

No entanto, por diversas razões que eu viria a compreender mais tarde, decidi fazer medicina. Estudei feito louco e passei na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Tive um mês de aulas, mas no início de setembro a Universidade entrou numa greve que durou cinco meses. Nesse período eu voltei a tocar violão com mais intensidade. Comecei a tocar nos bares (onde eu fazia voz e violão) e a ganhar um dinheirinho, que não era muito, mas foi o suficiente pra despertar um sonho que estava adormecido, o de ser músico.

As aulas de medicina voltaram, e foi bem nessa época que o Yamandu apareceu no cenário nacional, com o prêmio Visa. O impacto foi imenso. Eu ouvia o disco dele sem parar, até que tive a oportunidade de assistir a um show dele com o Armandinho em Florianópolis (onde eu morava na época). Foi um divisor de águas na minha vida. Era como se eu estivesse vendo o meu maior sonho se realizar na minha frente, o de tocar violão daquele jeito! Mas eu era coadjuvante nesse sonho, e não o protagonista. A partir daí foi um longo e intenso processo até eu entender o que estava acontecendo, aceitar os fatos e tomar a atitude de sair da medicina e ir tocar violão.

VIOLAB

Fale-nos um pouco sobre sua formação.

VITOR

Minha formação "oficial" foi feita na Unicamp, onde entrei para o curso de Música Popular. Como a base curricular era parecida, consegui me formar também em Música Clássica - Instrumento. Mas entendo que a formação de um artista é muito mais complexa do que um curso qualquer em um conservatório ou Universidade.

Precisei me preparar muito pra entrar na Unicamp. Apesar de eu nunca ter parado de tocar violão, me faltavam muitos conhecimentos de teoria musical. Fiz aulas na minha cidade com a Dulce Duprat, uma professora incrível que virou uma grande amiga. Estudei um ano com o Daniel Wolf, em Porto Alegre, pra onde eu ia quinzenalmente fazer aulas de violão.

Na Unicamp estudei com excelentes professores, entre eles o Hilton Valente (mais conhecido como Gogô), com o Rafael dos Santos, e com o Ulisses Rocha, só pra falar de alguns.

Esse período na Unicamp foi fundamental. Foi quando eu mergulhei de cabeça no mundo do violão. Era o dia inteiro estudando. Horas de técnica, e outras tantas de repertório, e o que sobrava de tempo eu ouvia música. Nas aulas com o Ulisses, além do violão propriamente dito, conversávamos muito sobre produção, posicionamento no mercado, e uma série de outros assuntos relacionados à carreira que eu só encontrei nas aulas com o Ulisses, porque, por incrível que pareça, num curso de música popular como o da Unicamp, não se falava de produção, que é um assunto de extrema importância!

Mas, além das muitas boas aulas que eu tive, o que considero que foi o mais importante na minha formação, foi o número de vezes que eu me apresentei. Eu tocava em todos os lugares possíveis, até no bandejão! Eu filmava praticamente todos os meus concertos, e os assistia depois. E foi com essa prática, de filmar e assistir, que eu fui entendendo o que era o palco, como montar um repertório de concerto, como se comunicar com o público, e principalmente, como fazer música de verdade. Foi quando eu entendi que é no palco que sabemos onde realmente estamos tecnicamente e musicalmente.

Além da Unicamp, frequentei vários festivais de música, onde pude fazer oficinas e masterclasses de grandes professores e artistas. O festival de música de Itajaí foi um dos que eu participei várias vezes como aluno. Foi quando eu conhecei o Arismar do Espírito Santo, a Bia Paes Leme, o Nelson Faria, o Maurício Carrilho e tantos outros.

Participei também de vários festivais de violão onde eu tive a oportunidade de assistir a masterclasses de grandes nomes do instrumento, como Manuel Barrueco, Fábio Zanon, David Russel, Jorge Caballero, Marcus Tardelli, e até com o Leo Brouwer, pra quem eu tive a grande oportunidade de tocar duas vezes em masterclasses.

Hoje eu entendo que o processo de formação de um artista não finaliza quando ele termina um curso qualquer. O processo de formação é contínuo e sem fim. E deve abarcar outras formas de arte. Estou convencido de que pra ser um grande artista, o violonista deve, evidentemente, estudar muito violão, mas, tão importante quanto as horas de estudo diárias, é ir ao teatro, às exposições de artes plásticas, a espetáculos de dança, ao cinema, é ler. As outras formas de arte fornecem conteúdos que muitas vezes não tem uma relação direta com a música, mas que preenchem o músico de experiências que vão ajudá-lo a interpretar as obras, a fazer os arranjos e a compor.

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Você foi premiado em vários concursos, alguns como vencedor. Como é seu processo de preparação para eventos tão competitivos?

VITOR

Faz algum tempo que deixei de participar de concursos. Pra mim, concursos de música têm dois lados, o lado negativo, de colocar você numa situação de competição, o que, pra mim, não condiz com o espírito do fazer artístico; e um lado extremamente positivo que é justamente o de ser um elemento motivador pro estudo do instrumento. A cada concurso que eu participava eu percebia que o meu nível técnico aumentava, e claro, quando falamos dos grandes concursos mundiais, eles costumam ser um grande propulsor de uma carreira internacional.

Quanto à preparação em si, não tinha muito segredo. Uma vez que o repertório estava definido, eram inúmeras horas de estudo, sempre tocando num andamento de moderado pra lento e progressivamente ir acelerando, até chegar no andamento desejado, e claro, dando um tratamento especial para as passagens mais difíceis de cada peça. Mas pra mim, o diferencial está no preparo psicológico, porque em situação de concurso não há espaço pra nervosismos.

É lógico, a adrenalina sempre vem, mas com o tempo eu fui aprendendo a direcionar essa energia pra música. Acredito que o que mais me ajudou foram aqueles inúmeros concertos que fiz na Unicamp. No fim das contas, prefiro pensar que cada oportunidade que tenho de tocar em público, seja num concurso ou não, é um concerto que estou fazendo. Essa maneira de pensar me ajudou muito nessas situações.

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Você foi o protagonista de um feito inédito: gravar a obra integral para violão de Radamés Gnattali. O que o motivou a desenvolver esse audacioso projeto?

VITOR

Eu conheci a música do Radamés pra violão através do Yamandu. Mais tarde eu descobri que o Radamés fez a música e os arranjos da Coleção Disquinho, que fez parte da minha infância, ou seja, faz bastante tempo que eu ouço Radamés (risos). Mas fiquei muito intrigado desde que ouvi sua obra pelas mãos do Yamandu. O que mais me atraiu na música do Radamés foi essa indefinição popular-erudito que existe na música dele. São peças tecnicamente muito exigentes mas, ao mesmo tempo, pra que a música aconteça, você tem que ter um "pé na cozinha", ou seja, se você não imprimir a característica rítmica (do samba, do choro…), a música não acontece. Então, primeiramente, o que me motivou a desenvolver esse projeto foi a identificação com a música do Radamés. Em segundo lugar, como a minha própria trajetória musical nunca foi definida, ou seja, nunca me considerei um violonista clássico propriamente dito, mas sempre gostei da música escrita, a música de Gnattali se encaixou perfeitamente à minha maneira de tocar e pensar música. E por último, entre me dedicar a um repertório já consagrado do violão ou partir pra um repertório pouco explorado, preferi a segunda opção, ainda mais sabendo que seria algo inédito, o que foi um grande elemento motivador para a realização desse projeto.

VIOLAB

Entre o levantamento da obra, a preparação para a gravação, a produção e o lançamento, quanto tempo foi necessário?

VITOR

Do momento em que acessei a primeira partitura até o lançamento do disco, foram sete anos de pesquisa e estudos. Quatro anos (mais ou menos) pra ter todas as partituras, mais dois anos de preparo (para o disco) e um ano de produção (entre gravação e lançamento oficial). Esse disco foi feito via FICC, que é um edital da prefeitura de Campinas.

Foi um momento de grande aprendizado na minha vida enquanto músico. Primeiramente porque precisei rever muitas questões técnicas relacionadas ao instrumento. Nessa época fiz algumas aulas com o Paulo Martelli que me ajudaram muito a compreender diversas questões ligadas ao violão clássico, especialmente o som e os translados (movimentação da mão esquerda).

Depois, foi gravando que eu entendi que estudar um repertório pra fazer um concerto é uma coisa e estudar pra gravar um disco é outra completamente diferente. O cuidado com os ruídos deve ser muito maior, porque aparece tudo. Eu gravei praticamente duas vezes o disco. Após cada sessão, eu levava duas ou três opções de cada música e ia pra casa pra escutar, e lá pela terceira vez me escutando eu começava a ouvir os meus vícios de interpretação, que muitas vezes estragavam o discurso da peça. Então eu voltava na semana seguinte e regravava.

Hoje meu procedimento pra gravação é outro. Faço um grande trabalho de pré-produção do disco, que envolve se gravar (mesmo que de forma bem caseira) e verificar se a interpretação me convém. E mesmo que eu tenha consciência do que eu estou fazendo quando estou tocando, ao me ouvir, tenho uma ideia mais precisa do todo da interpretação. Uma vez que esse trabalho foi feito, vou pro estúdio. A presença do Ulisses como produtor do disco foi decisiva, tanto na captação do som quanto nas sessões de gravação e na pós-produção (mixagem e masterização). É muito importante ter alguém mais experiente do lado, especialmente nos primeiros projetos.

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“Radamés Gnatalli: Integral para Violão Solo”, foi seu primeiro CD e lhe rendeu o “Prêmio Revelação” da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA. Fale sobre o impacto psicológico e profissional resultantes desse acontecimento.

VITOR

Confesso que quando eu decidi gravar esse CD, já imaginava que isso chamaria a atenção do meio violonístico, positivamente ou negativamente, mas sabia que não seria um disco que passaria desapercebido. No entanto, receber o APCA e ser indicado ao Prêmio da Música Brasileira certamente não estavam nas minhas expectativas iniciais.

Pra mim, foi a comprovação de eu tinha feito a escolha certa em sair da medicina e voltar pra música. O disco foi lançado em 2010 e em 2011 fiz muitos concertos de lançamento, especialmente pelo estado de São Paulo. Naquele momento eu achei que o jogo estava ganho, e que era só esperar que o meu telefone iria tocar e que iria aparecer um produtor que me ajudaria a alavancar a minha carreira.

Ilusão minha. Em 2012 eu fiz pouquíssimos concertos. Foi quando eu entendi que não existe essa história de "jogo ganho" e que o que faz realmente uma carreira acontecer não é um prêmio (seja ele qual for), mas sim a consistência do trabalho. Evidente que ser premiado faz superbem ao ego e eu pulei muito de alegria quando recebi a notícia! Sei também que numa possível contratação para um concerto isso pode ser decisivo, mas não garante nada. Um prêmio não garante trabalhos futuros, ele é apenas o resultado do trabalho desenvolvido até o momento. Nesse ponto é que eu acho positivo receber um prêmio como esse, porque ele reforça que você fez a escolha certa. Mas o que me motivou a gravar esse disco nunca foi a possibilidade de ser premiado. Eu simplesmente era (e ainda sou) apaixonado pela música do Radamés. E acho que esse é o caminho, fazer aquilo pelo qual você se sinta realmente apaixonado, o resto é consequência.

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Hoje você vive em Nantes, na França, e em pouco tempo já se firmou no cenário musical local. Conte-nos o porquê da escolha de viver na Europa e como isso aconteceu.

VITOR

Foram várias as razões. Em 2014 eu vim pra Europa fazer uma turnê na Dinamarca com o Quarteto Tau, do qual o fazia parte nessa época. Antes de ir pra Copenhagen (onde começaria a turnê) eu passei dez dias em Nantes, onde fiz um concerto e tive a oportunidade de conhecer a cidade. Adorei Nantes. Uma cidade pequena (em termos de Brasil) que possui uns trezentos mil habitantes, mas onde acontecem festivais de Jazz, de Música de Concerto, de Música do Mundo, de Literatura, de Cinema, e tantas outras atividades culturais, além dos inúmeros parques que a cidade oferece. Na sequência, fui pra Dinamarca, onde conheci uma realidade completamente diferente da que eu estava acostumado. Fizemos essa turnê por três anos consecutivos, sempre tocando nas escolas (a maioria públicas), pra um público mais jovem.

Como eu tinha a possibilidade de ter a cidadania europeia e estava prestes a ser pai, eu e a minha companheira, Camila Nobre, decidimos sair do Brasil e procurar um lugar onde pudéssemos criar a nossa filha com mais tranquilidade e com uma qualidade de vida melhor do que tínhamos em São Paulo. Esse certamente foi um dos principais motivos, além, é claro, da busca por novas oportunidades.

Saímos do Brasil em 2015, fomos pra Itália, onde fizemos o processo da cidadania e logo depois começaram a surgir possibilidades de trabalho aqui na França, onde moro até hoje.

VIOLAB

A chegada em um novo país é sempre um momento tenso e desafiador. Qual foi o acontecimento que deu o primeiro impulso nessa nova jornada?

VITOR

Já havia alguns anos que estávamos ensaiando para esse momento. O nascimento da nossa filha foi o acontecimento primordial que nos deu impulso pra essa mudança. Eu sabia que quanto mais ela crescesse mais difícil seria essa partida, então, como a documentação não era um problema (o que geralmente é um grande entrave pra resoluções como essa), era simplesmente uma questão de escolha. Havia a possibilidade da mudança e começamos a nos movimentar pra concretizar esse processo. Não encontramos nenhuma dificuldade no meio do caminho pra fazer isso. Tudo fluiu com muita naturalidade pra nossa partida. As dificuldades apareceriam depois, já na Europa, onde a língua certamente é uma barreira, mas para além da língua, os códigos sociais é que são realmente os pontos mais complicados de integrar, porque isso leva tempo. É por isso, a meu ver, que o processo de adaptação num país estrangeiro é tão demorado.

VIOLAB

Todos sabemos que a realidade cultural dos países de primeiro mundo é muito diferente da que conhecemos em nosso país. Que diferenças você observa e que impacto essa realidade tem na carreira de um jovem violonista como você?

VITOR

Acho esse um assunto um tanto delicado, começando pela própria definição de Cultura, que é muito abrangente e é motivo de discussões sem fim. Mas se olharmos um elemento mais objetivo, como o número de bares, teatros, galerias de arte, exposições, concertos e festivais que existem aqui, é impressionante.

Foi uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção. Ou seja, pra que tenha tanta oferta é porque existe público pra frequentar esses espetáculos. Eu não saberia fazer comparações em números precisos, mas eu não conhecia cidade de trezentos mil habitantes com essa quantidade (e qualidade) de espetáculos.

Outra diferença fundamental é que aqui na França existe um estatuto para os artistas e técnicos que trabalham no que eles chamam de "Spectacle Vivant" (música ao vivo, teatro, dança etc.). É uma lei bastante complexa, mas a base é simples: você deve fazer 43 concertos declarados (com nota fiscal) num período de um ano. Você monta um dossiê e envia ao órgão do governo que regulamenta isso, e você passa a ter direito de receber por um ano um salário que varia de acordo com o quanto de imposto que você pagou fazendo esses 43 concertos. Ou seja, você tem a possibilidade de receber um salário sendo artista. É uma coisa genial! Eu não sei por quanto tempo isso ainda vai existir por aqui, porque cada novo governo que chega ao poder põe esse assunto na pauta de discussões pra possíveis reformas, já que existem alguns pontos frágeis na lei. Mas só o fato de existir algo assim já nos faz sentir mais respeitados enquanto artistas, e a enxergar possibilidades reais pra que possamos viver fazendo aquilo que mais amamos, que é a arte.

Por outro lado, se falarmos de manifestações populares e diversidade cultural, aí o Brasil se destaca perante a grande maioria dos países do mundo, e as pessoas aqui realmente adoram a cultura brasileira (com certas preferências, claro). Existem manifestações populares aqui também, mas você vai encontrar a grande produção cultural europeia nos museus, nas casas de espetáculos, e não na rua, como acontece no nosso país.

Como eu disse anteriormente, acredito que a formação do artista deve ser a mais completa e variada possível. O que produzimos e oferecemos às pessoas é uma somatória dos nossos conhecimentos técnicos e das nossas experiências pessoais. Ter a possibilidade de estar aqui e vivenciar outra realidade cultural é enriquecedor por si só. Se, ainda por cima, encontramos um terreno que parece ser fértil pra nossa semente, é melhor ainda, porque você consegue ter perspectiva.

VIOLAB

Conte-nos um pouco do que você tem feito aí em Nantes.

VITOR

Eu tive a oportunidade de participar de projetos muito legais e de conhecer bastante gente. Quando cheguei aqui já era metade de junho, e eu estava com todo gás pra contatar os produtores e curadores da região. Na primeira ligação que fiz, descobri que a programação de quase todos os lugares já estava fechada pra próxima temporada, que começaria em setembro. As temporadas costumam ir de setembro até junho do ano seguinte, e de junho a agosto são os festivais que acontecem aos montes. Então eu decidi ir tocar na rua, uma experiência completamente nova pra mim. Levei algumas semanas pra tomar coragem e vencer os meus preconceitos (que confesso que eu achei que eu não tinha).

Essa experiência me rendeu maravilhosos encontros. Entre eles, com o Benjamin Barouh, filho do Pierre Barouh (letrista, compositor, ator, cineasta, que fez vários filmes, entre eles o "Saravah"). Pierre sempre nutriu uma imensa admiração pelo Brasil, e em especial ao Baden e ao Vinícius. Foi Vinícius que delegou ao Pierre a missão de traduzir "O samba da bênção" para o francês. Pierre não só o fez, como abriu uma gravadora chamada Editions Saravah, na década de sessenta. O Benjamin organizou um concerto chamado "Saravah Revisité" pra homenagear os cinquenta anos do selo e me chamou pra participar (junto com outros músicos parisienses). Imagina a minha alegria! A estreia desse concerto foi em Nantes, e fizemos um segundo concerto em Paris no final do ano passado dentro da programação do Festival BBMix.

Outro encontro que tive nessa minha ida pra rua foi com o diretor artístico de um Festival de Jazz que tem aqui em Nantes, onde também tive a oportunidade de tocar.

Além disso, participei de um grande festival de música clássica, chamado "Les Folles Journées" tocando o Romanceiro Gitano, do Mario Castelnuovo-Tedesco e Yanomami, de Marlos Nobre, duas obras pra coro misto e violão, com o Ensemble Vocal de Nantes, dirigido por Giles Ragon; participei também da temporada de concertos do Conservatório de Nantes, onde fiz o meu concerto no Teatro Graslin, um lindo teatro à italiana, que é o teatro de ópera daqui da cidade; e também alguns concertos privados e em alguns bares.

Dei aulas em algumas associações e escolas de música na minha região e também no Conservatório de Sables D'Olonne, onde lecionei por um ano. O curioso nesse conservatório é que cada uma das salas de aula foi batizada com o nome de um grande representante de cada instrumento, e a sala de violão se chama Sérgio Assad.

Hoje eu tenho alguns alunos particulares e tenho dado algumas marterclasses, como a que ministrei no Conservatório de La Rochelle.

VIOLAB

Voltando às gravações, depois da “Integral para Violão Solo”, que outros trabalhos você já gravou?

VITOR

Em 2015 eu lancei o meu segundo CD, intitulado "Sarau para Radamés" que é bem ligado ao primeiro. Além de ser uma homenagem ao Radamés, o "Sarau" nasceu dos concertos de lançamento do primeiro disco. Eu fazia um concerto que se chamava "Sarau para Radamés" onde eu tocava algumas de suas obras originais, alternando com alguns arranjos meus de obras ligadas ao Radamés, e permeando isso, eu lia alguns textos contando um pouco da importância dele pra música brasileira. O retorno dos concertos foi tão positivo que resolvi transformar em disco.

Foram dois anos e meio de trabalhos com o Bellinati pra fazer os arranjos, gravar e lançar. No repertório tá o Tom, Raphael Rabello, Garoto, Baden, Paulinho da Viola, Nazareth, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e, claro, Gnattali. Nesse segundo disco eu me aproximei um pouco mais da composição musical, já que muitos dos arranjos são de peças que originalmente foram escritas pra outros instrumentos, como piano, ou regional de choro, por exemplo. Então, pra fazer soar no violão, você tem que pensar na tonalidade e em quais elementos musicais você vai privilegiar, porque se você arranja uma peça que foi escrita originalmente pra piano, certamente você vai ter que mexer em algumas notas, pra que soe bem no violão.

O meu procedimento inicial pros arranjos é bem simples:

1 - Eu aprendo a melodia e a harmonia

2 - Defino a tonalidade

3 - Harmonizo a melodia

E uma vez que eu tenho esse material básico, é quando eu começo realmente a fazer o arranjo, ou seja, contracantos, introduções, forma, improvisações, outras harmonizações etc.

Voltando às gravações, em 2018 eu lancei o meu terceiro disco, uma parceria com o violinista francês Henrik André, que conheci aqui quando cheguei. Começamos um duo violão/violino tocando música brasileira e jazz, e decidimos fazer um projeto que chamamos de "Loro Project". Conseguimos realizá-lo através de um financiamento coletivo feito aqui. No CD, nós gravamos duas músicas em duo e o resto em quarteto (contrabaixo e bateria). O lançamento foi em setembro do ano passado, num festival de jazz chamado "Les Rendez-vous de l’Erdre", aqui em Nantes. É um projeto de sonoridades latino-americanas, mais voltado pro jazz. Gravamos Gismonti, Moacir Santos, Radamés, Hermeto, Jacob do Bandolim, Jobim, Baden, Chick Corea e algumas composições do Henrik. Tudo arranjado, mas com espaços para improvisação.

Além desses discos, gravei outros dois projetos que ainda não foram lançados oficialmente. Um com as composições de Felipe França (compositor paulistano), e outro com o cantor Chico Azevedo, um repertório em torno do universo dos Orixás. Nos dois discos eu participei como arranjador e violonista.

VIOLAB

Quais são seus projetos para o futuro em termos profissionais?

VITOR

Eu poderia ficar horas falando (risos)! Eu sempre tenho muitos projetos em andamento ao mesmo tempo. Um deles é do meu próximo trabalho solo, que vai ser sobre a música do Baden. Ainda não tenho ideia do formato (se será realmente solo ou não), mas o repertório já está praticamente definido e estou escrevendo os arranjos pra violão. É a minha reverência a esse grande mestre do violão, pelo qual sinto profunda admiração e respeito.

Também estou começando um trabalho com Roberto Oliveira, trombonista brasileiro que mora no norte da França. O repertório ainda não está cem por cento fechado, mas com certeza faremos algum Radamés! A estreia desse trabalho será em março, no II Festival de Choro de Lille.

Além disso, estou estudando arranjo e composição no Conservatório de Nantes e fazendo uma formação pra obtenção do diploma francês de ensino de música. Continuo dando aulas particulares, pela internet e também estou estruturando o meu curso de violão on-line que deve ficar pronto em alguns meses.


 

DISCOGRAFIA

2010 - Radamés Gnattali - Integral para Violão solo

2015 - Sarau para Radamés

2018 - Garbelotto/André - Loro Project

 

SITE

www.vitorgarbelotto.com

 

REDES SOCIAIS

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VÍDEOS

Canto de Iemanjá/Canto de Xangô (Baden Powell e Vinícius de Moraes) - Arranjo: Vitor Garbelotto

https://www.youtube.com/watch?v=r7owJIIWIcQ

 

Camará (Raphael Rabello e Paulo César Pinheiro) - Arranjo: Vitor Garbelotto

https://www.youtube.com/watch?v=LAdx1vPTvGM

 

Estudo X - Radamés Gnattali

https://www.youtube.com/watch?v=EtNuQxgkYWU