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VIOLAB entrevista Turíbio Santos

Nascido em São Luiz do Maranhão em 1943, TurÍbio Santos é uma das maiores referências do violão clássico brasileiro de todos os tempos.

Com mais de 40 trabalhos gravados, ex-diretor do Museu Villa-Lobos, o qual dirigiu por 24 anos, responsável pela criação dos cursos de Violão da UFRJ e UniRio, a longa, intensa e rica carreira de Turíbio Santos daria um livro. Na verdade, deu sim, um livro intitulado “Caminhos, Encruzilhadas e Mistérios (Editora ArtViva - 2014)”.

Mais do que uma autobiografia, o livro é um rico relato das experiências compartilhadas com personagens que cruzaram seu caminho e as marcas deixadas por tais encontros.

Trata-se de uma linda viagem pelo mundo do violão, onde em cada parada sobe ao vagão gente como Villa-Lobos, Andrés Segovia, Julian Bream, Oscar Cáceres entre tantos outros nomes que para maioria de nós soam como lendas, os quais, graças a Turíbio, passaremos a conhecer muito mais de perto.


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Como surgiu a ideia de escrever sua autobiografia?

TURÍBIO

Quando me pediram pra fazer este livro, como eu já tinha colaborado em 3 biografias minhas pra outras pessoas (a primeira foi para a Estácio de Sá, pra uma coleção de livros chamada 'Gente'; a segunda foi pra UniRio, para uma outra coleção chamada 'Chronos'; e a terceira foi uma foto-biografia, produzida pelo Moacyr Scliar, então eu tinha tudo isso organizado em casa, quando o Marcelo Kayath me pediu para fazer uma autobiografia. E a ideia do livro era a seguinte: olhando para trás, tive várias coisas que eu nunca tinha avaliado, que eu nunca tinha botado na balança pra saber o peso. Mas eu vi que sempre tinham encontros incríveis que aconteceram, encontros muito bacanas. Aquela frase do Vinícius de Morais é espetacular: 'A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros na vida'. É uma maravilha! Se eu pudesse resumir meu livro, seria isso. Meu livro é isso, só que os encontros, os belos e generosos encontros, superam disparado qualquer outra coisa. E eu sou muito grato de ter tido essa chance, eu não sei a quem, mas eu sou grato (risos).

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O nome do livro tem um forte apelo poético. O que o motivou para a escolha desse nome?

TURÍBIO

Foi um desses encontros - inclusive eu já tô aqui treinando um pouquinho com você, porque eu vou fazer uma palestra para a Academia Brasileira de Letras e o título da palestra é 'Violão: uma encruzilhada na obra de Villa-Lobos'. E Villa-Lobos também esteve numa encruzilhada na minha vida, por isso o livro se chama 'Caminhos, encruzilhadas e mistérios'. Mistérios são coincidências incríveis que acontecem, o porquê de você estar ali naquela hora, naquele local... Você não sabe por que, mas o destino sabe. O destino sabe direitinho porque que você estava ali: estava esperando alguma coisa que ia acontecer, que não era evidente, e aconteceu.

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Você teve a oportunidade de conhecer Villa-Lobos pessoalmente. Como foi esse encontro?

TURÍBIO

Com 15 anos de idade eu conheci Villa-Lobos, justamente num desses encontros - numa palestra que ele fez no Rio de Janeiro - e esse encontro me marcou muito porque primeiro a personalidade do Villa-Lobos era fascinante, segundo, tinha muito pouca gente no auditório onde ele fez isso, no Instituto Benjamin Constant, ali na Urca. Éramos três pessoas: Ademar da Nóbrega, que veio a ser biógrafo do Villa-Lobos, eu e mais uma terceira pessoa. E isso foi incrível porque o Villa-Lobos olhou para os três - eram 3 horas da tarde, uma hora muito imprópria pra fazer esse tipo de coisa, e, principalmente, o local também, meio fora do centro da cidade (é bom não esquecer que isso foi feito em 1958, um ano antes dele morrer). Aí, o resultado: sentei com essas pessoas, Villa-Lobos estava sentado com a Arminda Villa-Lobos, a esposa dele (que na época que ainda se chamava Neves d'Almeida, o nome Villa-Lobos criou até jurisprudência no Brasil), e a Julieta, irmã da Dona Arminda. E o Villa-Lobos era um cara muito extrovertido, muito alegre, muito falante; ele gostava de contar a história dele. Uma história sensacional, então ele não ficou só no violão. Ele saiu contando a vida dele toda, e sempre em torno do violão. E aí coisas espetaculares aconteceram. Como eu estava industriado para fazer isso - estava intimado até - pelo Hermínio Bello de Carvalho e pelo Jodacil Damaceno, ambos na época alunos do professor Antonio Rebello, que também foi meu professor. O avó do Sérgio e Eduardo Abreu. E você vê que as coincidências vão se somando: ambos estavam doentes e queriam porque queriam saber todos os detalhes dessa conferência, então me disseram: 'Ó, anota tudo! Mesmo que você achar que não é importante, um dia vai ser extremamente importante'.

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Você poderia mencionar algum fato interessante abordado por Villa-Lobos, nessa palestra?

TURÍBIO

Não foi nem preciso esperar muito para ele falar que os prelúdios eram homenagens. Daí, citou as 5 homenagens do prelúdio, por exemplo: número 1, ao homem no campo; número 2, para o capadócio carioca; o número 3 para a música de Bach; o número 4 para o índio brasileiro; e o número 5 para a vida social carioca. E para a gente entender muito bem o que era vida social, ele explicou: "Aqueles meninos, fresquinhos, que vão aos concertos e tal...". Aí rimos, todo mundo riu, e ele disse: 'Não é isso que vocês estão pensando; meninos fresquinhos que estou dizendo é porque eles vão bem-vestidinhos, com roupinhas alinhadas', o que realmente era o público da música clássica.

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Como os outros músicos da época enxergavam a música e a personalidade de Villa-Lobos?

TURÍBIO

Villa-Lobos era conhecido nas rodas de choro, e quando ele chegava, o pessoal dizia logo: 'Lá vem Villa-Lobos com aqueles acompanhamentos estranhos!' (risos). A harmonia pra ele era outra conversa, eram outras soluções, e etc e tal. Basta ver o estudo 4, que ele fez entre 1923 e 1928. Tom Jobim um dia, comparando o estudo número 4 com um som que eu fiz na casa dele, me deu uma gozada assim: 'Turíbio, esse teu instrumento é muito ruim pra harmonia, viu?'. Eu disse: 'Ah, você toca piano e violão e já sabe perfeitamente que o piano é muito melhor; tá tudo ali clarinho, defronte, transparente, e violão é falsa relação para cima e para baixo, é mudança de acorde, é o diabo à quatro que a gente faz pra poder acompanhar as coisas'. E aí ele disse, tocando de cor o estudo número 4 de Villa-Lobos: 'Mas o velho sabia das coisas, né?'.

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Fale sobre outras encruzilhadas.

TURÍBIO

Vão se superpondo sempre essas encruzilhadas. Não só as minhas encruzilhadas, mas as encruzilhadas de todas as pessoas. Outro dia mesmo me lembrei: tive uma bela encruzilhada contigo lá em Porto Alegre, foi a primeira vez que todos nós tocamos juntos. Era você, Yamandu, o Sá, o Guinga... e fizemos aquela bagunça lá em Porto Alegre, foi um negócio muito legal. E foi uma encruzilhada aquilo. Coisas esporádicas são as mais sensacionais pra nossa profissão. Aquelas inesperadas: 'pá!': de repente acontece algo de muito bonito.

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Andrés Segovia foi talvez o maior nome do violão no século XX. Como foi sua encruzilhada com ele?

TURÍBIO

Um encontro fabuloso, foi um encontro extraordinário, pô... Porque tinha tudo pra dar errado e foi um choque meio pesadão, porque eu estava em Santiago de Compostela, fazendo um curso lá em 1965 - eu ganhei um concurso em 65 em Paris, e um dos prêmios era estudar em Santiago de Compostela com o Segovia. E lá fui eu. E eu tô vendo aquela coisa fascinante, tinha garotada do mundo inteiro sentada ali admirando o grande mito que foi Segovia, que é Segovia até hoje. Espetacular, uma coisa fantástica, eu aprecio muito. Mas tinha uma interferência muito grande no circuito: a televisão americana, que estava filmando tudo. Eu acho ou o diretor pediu para o Segovia fazer aquilo ou ele fazia de hábito, mas o fato é que ele não deixava ninguém tocar. Quer dizer, as pessoas começavam, depois de quatro ou cinco compassos, o Segovia dizia: 'Peraí, um momento', tal. As pessoas acabavam tocando, mas em retalhos, tudo pela metade, e também eu achava que havia uma falta de respeito com aquela garotada toda. Inclusive eu me preparei; disse: 'Tá bom, não tô de acordo com esse troço, vamos ver que bicho dá'. Aí ele me chamou, eu fui tocar. E à medida que eu ia tocando, logo no começo, eu ouço aquela voz dizendo: 'Senhor Santos, por favor...' e eu continuei (risos). Daqui a pouco eu faço a primeira escala: 'Senhor Santos, por favor, Senhor Santos...' e eu continuei, não dei a menor bola. Aí ele desistiu, ficou caladinho, ficou quieto, e eu toquei até o fim. Quando eu toquei até o fim, os garotos que estavam lá aplaudiram com um entusiasmo incrível; não era pelo que eu toquei não, era só pela postura, pela atitude... pô, que é isso?! Afinal, nós estamos aqui, mas respeito é bom e eu gosto (risos)! Daí eu disse 'Esse velho nunca mais vai me chamar nessa visita, vou tomar cuidado com ele!'. Aí apareceu a cabeça sensacional de Segovia: no dia seguinte ele me convidou pra tomar chá com ele no hotel. Aí lá fui eu, com o disco dos 12 estudos debaixo do braço, e dei de presente pra ele. E daí eu vi a verve dele fantástica: um cara inteligente, gozador... e evidentemente, foi esse temperamento dele que fez com que ele ficasse fascinado com o Villa-Lobos que também era um temperamento barra-pesada. Villa-Lobos era um cara muito delicado, muito alegre, muito gentil. Então na hora que eu perguntei ao Segovia (e eu ouvi a história contada pelos dois): 'Você conhece o Villa-Lobos? Um compositor brasileiro, compõe muito pra violão...', ele disse: 'Não compõe bem. Ele compõe mal, porque tem música que pede pra usar o mínimo na mão direita, e pra usar o polegar da mão esquerda na frente do braço, pra grandes aberturas'. E Villa-Lobos tava do lado do violino, e disse: 'Pô, mas se você não usa os dedos, manda cortar os três dedos! Deixa eu ver esse violão aqui' e pegou o violão. Aí começou a fazer aquelas coisas do Villa-Lobos, acordes daquela época. Um acorde daqueles era uma novidade total, a maneira como ele trabalhava a harmonia... E o quê que aconteceu? Segovia ficou impressionadíssimo, acabaram a noite amigos do peito, e entre 23 e 28 Villa-Lobos fez os 12 estudos para Segovia.

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Acredito que entre as encruzilhadas e mistérios haja também histórias engraçadas. Você se lembra de alguma?

TURÍBIO

Segovia me contou o seguinte, ocorrido com ele em Recife no Teatro Santa Isabel:

"Eu fui tocar em Santa Isabel, em Pernambuco, e percebi que havia um barulho de bonde muito forte. E esse barulho de bonde ia perturbar muito o concerto então eu fiquei mau-humorado, fui pro camarim, e quando diretor apareceu, eu disse a ele: 'É horrível o barulho do bonde passando, não dá pra tocar num lugar como esse. Tô cancelando esse concerto’. Aí o diretor me olhou com um rosto sorridente e disse: 'Pois não, mestre, tudo bem. Daqui a pouco eu volto'. Eu achei meio estranho, mas... Quem sabe? Era um cara muito bem-humorado, tal... aí, daqui a pouco volta o diretor e diz: 'A sala está lotada, daqui a 5 minutos começamos o concerto' (risos). Daí eu fiquei desarmado, fiquei com o pé trêmulo, me senti uma criança, completamente paralisado diante daquele diretor impávido, sorridente... eu fui dominado por ele. Fui e não houve barulho nenhum, os bondes devem ter suspendido o roteiro, a passagem perto do Teatro, pois eram muito barulhentos. Quando eu saí, alguém me perguntou: 'Você já encontrou o nosso diretor do Teatro?'. Eu disse: 'Já, ele é meio estranho, parece que ele não presta atenção quando você fala...'. Ao que responderam: 'Lógico, maestro, ele é completamente surdo!' (risos)."

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É uma pergunta clichê, mas todo violonista adoraria saber sobre os violões que já passaram pelas suas mãos. Você poderia falar um pouco sobre eles?

TURÍBIO

Olha, tem um bocado de violão. O primeiro violão foi uma Giannini que meu pai me deu de presente, aconselhado pelo síndico do edifício onde a gente morava, Bernardo Bontempo - que era do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, inclusive. E eu tocava naquele Giannini e nem sonhava em ser profissional nem coisa nenhuma, mas acontece que eu mergulhei de cabeça logo de cara, me interessou muito, porque eu tinha na mente, aos 12 anos de idade, aqueles discos de Segovia que meu pai tinha em casa, os discos de Dilermando Reis... A grande fisgada que o violão me deu foi por causa de seu som. O som do violão é um negócio... pra mim continua sendo imbatível e inacreditável. O violão de Segovia, o violão de Dilermando Reis... o som daquele violão que seduz, que é brigão, é batalhador, é rasgueado, às vezes é flamenco, às vezes é bossa-nova, João Gilberto... é por aí afora. O violão do Brasil, então, é uma maravilha. Então esse som é que me fascinou. Depois do Giannini, quando eu conheci o Antonio Rebello, fui estudar com ele. Aí eu conheci o Jodacil, conheci o Hermínio Bello de Carvalho, e me disseram: 'Você precisa ter um violão melhor do que esse'. E aí me recomendaram o Do Souto, que era feito no Bandolim de Ouro, lá no Rio de Janeiro. Aí eu fui lá, meu pai encomendou, me deu um Do Souto e eu adorava o violãozinho. Depois desse Do Souto, eu conheci o Oscar Cáceres, e ele tinha um violão chamado Santurion, uma beleza de violão, uruguaio. Aí como eu com 17 anos já pegava o ônibus e ia atrás do Oscar lá em Montevidéu, acabei comprando um Santurion também. E o Santurion praticamente me deu o violão de presente, mas foi comprado. Depois eu fui pra Paris, ganhei o concurso... e quando eu ganhei o concurso, o prêmio na época correspondia com o preço de um bom violão. E eu disse: 'Ah, legal, vou comprar um violão'. Fui estudar com o Segovia, e na vinda passei por Madrid e comprei uma Ramirez. A Ramirez era um violão lindo, um violão poderoso, mas eu tocava nela meio desconfiado: 'Esse violão pode ser maravilhoso, mas não é pra mim. É para um cara muito maior do que eu, com a mão muito maior do que a minha’. Aí, eu descobri Robert Bouchet. Do Robert Bouchet eu tive três violões, um atrás do outro. A primeira gravação que eu fiz para os 12 Estudos lá em Paris foi feita com um Robert Bouchet. Depois do Robert Bouchet, o Cáceres veio para Paris; eu armei para trazer o Oscar e a mulher dele, e conseguimos. Encontrei posto para ele dar aula e foi muito legal, ele veio e pra mim foi uma felicidade enorme ter o Cáceres lá em Paris. E, evidentemente, a gente já tinha tocado em tudo, já tinha gravado em tudo no Brasil com as duas Santurions, agora o Cáceres tinha uma Fleta. Ele passou por Barcelona em alguma ida e vinda e conseguiu trazer uma Fleta. Na época havia até uma lenda, que você tem que esperar não sei quantos anos para ter uma Fleta e tal e coisa (risos). Eu tive três Fletas, e nunca esperei. Quer dizer, eu esperei 2 meses ou 3 meses... O velho Ignacio Fleta avisava que tinha um violão, eu ia lá e buscava. Porque ele sentiu que eu era um obcecado pelo som. Mas ele não sentiu como se eu tivesse dito para ele: 'Ó, eu sou um obcecado pelo som', não. Ele me viu tocando e sacou alguma coisa que me abriu as portas, talvez até a minha própria amizade com o Cáceres e tudo isso. Provavelmente também pesou tremendamente. Aí gravamos vários discos, três discos. E nessa época eu já tava galopando em cima... mas a Fleta também não era o que eu sonhava. Aí comecei a trabalhar com um cara de Paris, Daniel Friederich. Friederich fazia lindos violões. Acontece que a Fleta não dava espaço pra eu fazer experiências com o Friederich, porque a Fleta era muito boa e o tempo todo eu tinha um senso de muita responsa. Aí, eu fui ao Japão e lá tem o Masaru Kohno e a firma japonesa que me levou lá, a Yamaha (caramba, olha só [risos]. Os caras devem ter ficado muito bravos!), pagou a minha turnê e perguntou se eu aceitava visitar a fábrica deles de violão. Eu aceitei, e a caminho de um concerto a gente parou, eu tava com a minha Fleta, fomos lá. Aí tinham uns 12 japoneses esperando, todos formais, como sempre muito respeitosos, muito calorosos também, com aquele jeitinho deles, aí eu dei uma de oriental também: eles botaram 8 violões enfileirados e me pediram para eu escolher um violão. Fazer análise, botar em sequência os que eu gostava mais, os que eu gostava menos, e eu disse 'Tá ok, mas para fazer isso eu quero ficar sozinho aqui'. Aí todos se retiraram (risos), foi um troço muito engraçado. Aí eu peguei os violões, fui comparando... lógico, para me dar segurança na escolha. Enfileirei os violões todos e os caras voltaram e eu disse outra coisa bem oriental; eu disse pra eles qual era a ordem que eu tinha apreciado. Aí eles disseram: 'Nós estamos de acordo com você, nós também acreditamos que a ordem é esta que você determinou'. (risos) 'Então a gente quer dar de presente pra você o violão número 1'. Eu disse: 'Não, você me desculpe, mas eu não aceito violão de presente. Nunca aceitei na minha vida. Todos meus violões eu comprei e paguei por eles. Mas eu tô muito sensibilizado com a oferta de vocês, não é uma falta de respeito'. Porque, inclusive, era o que eles chamam de temporada dos festivais - festivais são coisas que acontecem ao ar livre, não é só festival de música, não, é festival de arte, de cultura, de tudo. É uma época em que as pessoas japonesas dão presentes umas pras outras, e pegaria muito mal se eu recusasse o presente. Mas eu recusei a coisa profissional, e expliquei pra eles que estava muito sensibilizado. Aí eles perguntaram: 'Você não quer comprar o violão? A gente faz o preço'. (risos). Aí fizeram um preço assim: vamos supor que na época o violão podia ser uns US$ 5 ou US$6 mil, eles fizeram para mim por US$ 1.500,00. Eu disse: 'Tá bom, eu compro'. E eles disseram: 'Então alguém vai aí em Tóquio levar o violão como você gosta. Diz qual é a altura, qual são as dimensões', e eu fiz tudo certinho. E novamente, outro comportamento daquela elegância dos japoneses que é fantástica: um deles foi a Tóquio, trouxe o violão, eu toquei no violão e disse: 'Tá perfeito. É como eu gosto, tá ótimo! Violão confortável'. E ele me disse: 'Agora, o senhor me desculpe, mas eu trouxe um presentinho para sua esposa.' (risos). E me deu um colar de pérolas de três voltas, mas não era daqueles de feira hippie, não! Um pra valer mesmo, tinha uma elegância... Um negócio de doido, os japoneses são fantásticos. O manager lá me levou no ateliê do Masaru Kohno; violões lindíssimos, espetaculares, e quando eu ia embora o Masaru Kohno disse pra mim: 'Olha, tem um aluno meu que tá lá no Brasil, o Shigemitsu Suguiyama' (risos). Aí, eu cheguei e fui tocar em São Paulo, no MASP, e no intervalo quem aparece? Suguiyama, e ele traz um violão dele. No final do concerto ele me mostrou o violão. Eu olhei o violão, com uma base de marqueteria imbatível, um negócio alucinante. Quando ele me mostrou o violão, eu tive essa impressão da marqueteria, mas do som do violão eu não gostei. E eu disse para ele logo de cara: 'Olha, você me desculpe, o som do violão não está à altura da marqueteria dele. A sua capacidade com a madeira é um negócio espantoso, eu tenho certeza que você pode fazer um violão muito melhor do que esse'. Mostrei minha Fleta pra ele, ele tocou na minha Fleta e compreendeu exatamente o que eu estava querendo dizer e, a partir daí, ele pediu permissão se podia vir ao Rio. E eu disse: 'Pô, beleza, quando você estiver no Rio, você telefona'. Pois ele começou a vir; a cada dois ou três meses ele aparecia lá em casa com dois violões (risos). E a cada viagem, ele melhorava. Deu saltos espetaculares. Como eu tava muito em contato naquela época com a música popular,com João Bosco a gente tocava violão junto, viajávamos e tal e coisa, e Paulinho da Viola também... aí eu saía com o meu bando do violão e ele saía mostrando os violões pro caras, né: João Bosco, Paulinho da Viola, Tom Jobim e muita gente comprou violão com Suguiyama. E deu um 'boom' de Suguiyama de repente. Aconteceu que ele trouxe um Suguiyama que eu disse 'Pô, esse violão é tão bom ou melhor que a Fleta'. Aí comparei em casa, eu tava gravando um disco na sala Cecília Meirelles, com o Fontenelle, que era um técnico espetacular, e a minha mulher na época, a Sandra, tinha também um ouvido muito impressionante. Aí eu fiz o teste com o violão, eu peguei o violão, levei para a sala Cecília Meirelles e disse: 'Olha, eu trouxe duas Fletas aqui, vamos testar um pouquinho elas pra ver com qual eu gravo'. Só deu o Suguiyama. Aí já gravei o primeiro disco com o Suguiyama. A partir daí, foi rolando. Outra encruzilhada: eu tô com a Orquestra de Violões, entra um rapaz super humilde, marceneiro, e diz: 'Professor, eu trouxe um violão aqui para o senhor ver'. No intervalo eu peguei o violão dele, examinei, toquei, fiquei impressionadíssimo. Aí eu disse: 'Guenta aí. Eu vou fazer um comercial pra Orquestra'. E disse: 'Olha, pessoal, acabei de emprestar um violão aqui que não é brincadeira, é uma coisa seríssima e ele disse que tem 5 violões para vender. Quem comprar violão por esse preço, vai fazer um negócio da China'. Pronto: vendeu tudo, e aí decolou (risos). Era o Jó Nunes. Também ele, como o Suguiyama, tinha uma capacidade de auto-crítica, uma humildade, um troço bonito, pô. E muito amor pelo som do violão. O som do violão fascina ele, é uma coisa hipnótica. E lá foi; Jó decolou e aí terminou a história (risos). Hoje eu uso o Jó Nunes de sessenta e três, seis centímetros, um violão com muito carinho, que eu pedi pra um sobrinho meu. Na época eu disse pra ele: 'Ô Jó, o garoto é pequenininho, você tem que fazer um violão menor. 65 já é muito grande, tem que fazer um de 63.'. E ele: 'Não tenho forma de 63, mas vou estudar o assunto.'. Aí ele não telefonava, não aparecia, e eu acabei entrando numa loja qualquer, comprei um violão pequenininho, e dei pro meu sobrinho. Aí um dia o Jó telefona: 'Turíbio, teu violão tá pronto'. E eu: 'Que violão, Jó?!'. E ele: 'Aquele violãozinho que você pediu pra eu fazer tá aqui'. E eu: 'Ô Jó...! Cê tá doido? Já comprei o violão pro garoto'. E ele: 'Ah, não, Turíbio, então eu vou te dar esse violão'. Aí eu disse: 'Pô, então, me dá esse violão. Realmente não tem mais o que fazer, mas eu tenho um amigo que tá aí, de repente vamos emprestar pra ele, se ele comprar, pronto'. Aí dei pra esse amigo, o garoto andou 6 meses com o violão - felizmente não aconteceu nada com o instrumento. O violão voltou pra minha mão, eu levei pra minha casa de praia em Ponta Negra, e eu tava ensaiando um dia lá com o Francisco Frias. A gente ia gravar dois violões e eu disse: 'Não precisa trazer violão, porque tem um violãozinho lá'. Ele pegou o violão e disse: 'Pô, Turíbio, que violão incrível é esse que você arrumou!'. Eu disse: 'Incrível? Não acho, não... Deixa eu ver'. O violão era mágico: facílimo de tocar, e respondia tudo sempre naquela frequência que o violão não gosta, sabe? Um agudíssimo. E aí, esse violão passou a ser um titular. Esse pequenininho. E agora não tem mais volta, acabou, eu acho que ele me satisfez totalmente. Até comparo com um cachorro: o violão ideal é aquele que você diz: 'Sentado', e ele senta (risos). Você diz: 'Estou com saudade de você', e ele abana o rabinho (risos). E esse negócio do volume também do violão, eu vi várias pessoas tocando de perto o Bream, Segovia e Paco de Lucia, todos três têm um som baixinho. Muito bonitos, lindos os sons, maravilhosos - mas baixos.


"Caminhos, encruzilhadas e mistérios..." - Dados Bibliográficos

Editora: ArtViva

Ano: 2014

Páginas: 220

Idioma: Português