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VIOLAB entrevista Arthur Endo

É provável que até hoje você não tenha ouvido falar de Arthur Endo. Mas isso deve mudar em breve. Com 21 anos de idade, faculdade de música ainda em andamento, o jovem violonista foi protagonista de um feito no mínimo emblemático: Venceu a fase brasileira do festival internacional Imagine. O evento foi criado para estimular e premiar jovens músicos do mundo de todas as tendências musicais. O festival reuniu representantes do heavy metal, sertanejo, pop etc, e Arthur acabou vencendo tocando clássicos da música brasileira ao violão solo. O acontecimento só comprova aquilo que o VIOLAB já sabia: O violão está na alma da nossa música e não resistimos a ele quando está a serviço de mãos talentosas. Vamos conhecer um pouco mais da vida e dos objetivos desse promissor instrumentista.

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O que o levou a se interessar pelo violão?

ARTHUR

Meus pais sempre se interessavam muito por música. Minha mãe canta e toca piano e meu pai toca violão, ambos amadoramente, mas com habilidades de sobra para animar as festas de Natal. O amor deles pela música é muito puro, muito genuíno. Acho que acabei herdando uma relação bastante saudável com a música por conta disso. Meu pai me colocou nas aulas de guitarra da escola quando eu tinha 10 anos. Na época o universo do rock era enigmático e fascinante pra mim. Durante toda infância minha banda preferida sempre foi Led Zeppelin e conseguir tocar os riffs de Jimmy Page me trazia um baita êxtase. O violão se tornou minha prioridade em um momento muito específico, que foi quando, com 14 anos, eu ouvi pela primeira vez a música Bachianinha n°1 de Paulinho Nogueira em um recital de violão. Por coincidência ou não, Julia Nogueira - filha de Paulinho - foi minha primeira professora de musicalização infantil na escola. Logo que cheguei em casa do recital fui procurar uma tablatura da peça na internet. Algumas semanas depois as notas estavam saindo e alguns meses depois já era possível executá-la para amigos. Essa peça me abriu muitas portas, pois além de me apresentar um mundo novo e inexplorado no instrumento, também me deu a confiança para estudar música com mais seriedade. Lembro-me do dia em que meu professor de futebol ficou superchateado porque eu parei com o treino para poder ir nas aulas do projeto Guri. Foi em torno desse período que minha paixão pelo violão começou a se sobrepor aos outros interesses. Logo em seguida comecei a fazer aula com um excelente professor de violão chamado Evandro Ferreira, que me introduziu de maneira paciente e atenciosa ao estudo do violão solo, me apresentando compositores como Dilermando Reis e Garoto. Bachianinha n°1 também foi a peça que toquei para entrar na EMESP, instituição onde eu decidi que era à música que eu dedicaria minha vida.

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Você é aluno faculdade de música da Unicamp. Como você enxerga a influência do curso no seu pequeno – porém já vitorioso –, percurso musical?

ARTHUR

A possibilidade de fazer uma universidade pública com músicos excepcionais no corpo docente é um enorme privilégio em todos os sentidos. Não tenho dúvidas de que a parcela profissionalizante de meu desenvolvimento musical e artístico tem sido fomentada no contexto da graduação. Acredito que, na música, assim como no xadrez e nos esportes, é essencial que hajam mentores para os jovens e, no meu caso, Ulisses Rocha, que é o professor de violão da Unicamp, é meu sensei. Desde muito antes de entrar na faculdade já conhecia e admirava muito o trabalho do Ulisses. E quando eu soube que se entrasse na Unicamp teria aulas com ele, não tive mais dúvidas em relação ao que prestar no vestibular, pois ter esse tipo de contato com um ídolo valia muito mais do que qualquer diploma. As aulas com o Ulisses durante esses 4 anos têm sido, sem dúvida alguma, a parte mais relevante da minha graduação. Todo meu desenvolvimento como músico tem sido consistente graças a orientação e ao incentivo desse professor incrível. Sou muito grato à Unicamp por essa oportunidade. A vivência com os colegas também é maravilhosa. Aprendo muito tocando e conversando com os músicos que estudam na Unicamp. Muitos deles são amigos que levarei para toda a vida.

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No Prêmio Imagine, você concorreu com uma enorme variedade de jovens artistas representantes de diversos estilos musicais, muitos deles de apelo bem popular, como um grupo de Heavy Metal, cantores pop e até um grupo de percussão. Você venceu tocando violão solo, executando Nazareth, Jobim e Guinga. Você percebe que protagonizou uma quebra de paradigma?

ARTHUR

Vivemos em um contexto no qual gêneros como o Sertanejo Universitário e o Funk são muito mais valorizados pela maior parte da população que a música instrumental. Acho que o reconhecimento do violão brasileiro em um festival que contempla todos os estilos, de fato, é uma quebra de paradigmas estéticos. Esse festival tem a proposta de julgar cada grupo ou solista de acordo com sua proposta artística. Já houveram vencedores do rap, metal, jazz, pop, indie... Acho que o violão brasileiro tem muito a oferecer, e a oportunidade de explorar esse universo em um festival como esse, e ser valorizado por isso, foi realmente inesquecível.

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Como você ficou sabendo do prêmio e o que o levou a se inscrever?

ARTHUR

Dois anos atrás, na edição de 2015, um grande amigo montou um grupo para participar desse festival e me convidou. Fomos classificados para semifinal, mas não passamos. Acredito que situações que me tiram da zona de conforto também potencializam meu desenvolvimento musical. O aprendizado e crescimento que vêm de uma preparação para um evento assim são mais importantes que qualquer outra coisa. Me inscrevi no festival pois sabia que seria levado ao meu limite na preparação e que isso já valeria a pena.

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Que repertório você apresentou nas três fases do concurso?

ARTHUR

Semifinal:

Malandro descendo o Morro - Raphael Rabello (adaptação de Arthur Endo do arranjo de Raphael Rabello)

Rosa - Pixinguinha (Arranjo: Arthur Endo)

Conversa de Baiana - Dilermando Reis (Arranjo: Arthur Endo)

Final:

Samba de uma nota só - Tom Jobim e Newton Mendonça (Arranjo: Raphael Rabello)

Odeon - Ernesto Nazareth (Arranjo: Arthur Endo)

Baião de Lacan - Guinga (Releitura: Arthur Endo)

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A partir de que momento você vislumbrou a possibilidade de ser o vencedor?

ARTHUR

O festival tem excelentes músicos de diferentes estilos e cada um tem particularidades que os tornam únicos. Acho que essa é uma das grandes dificuldades de prever resultados dentro do Imagine. Durante os 4 meses que antecederam a competição entrei em um período bastante intenso de estudo direcionado para o repertório do festival. Fiz minirrecitais para vários amigos e procurei músicos mais experientes que eu em busca de conselhos. Por conta desse processo de preparação, fui construindo certa confiança e, quando o concurso começou, sabia que era um candidato forte. Porém, em nenhum momento do festival tive a certeza de que venceria.

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Como foi a sua preparação para as eliminatórias?

ARTHUR

Meus pais contam que, quando eu era criança, brincava e corria e suava e pulava e gritava e ria e girava, até que, de repente, eu deitava no chão e dormia de tão esgotado. Um grande amigo costuma dizer que sou 80 ou 80. Acho que tenho uma tendência de levar tudo ao extremo e a preparação para esse concurso foi um reflexo disso. Durante os meses que antecederam o concurso eu acordava às 4 da manhã e estudava uma média de 8 horas por dia. Mas essa é a minha maneira de fazer as coisas, não acredito que seja benéfico para todos, muito pelo contrário. Já tive três tendinites por conta disso. Tem pessoas que estudam muito mais, e outras muito menos, e têm resultados melhores. Eu demorei pra entender que não existe a fórmula perfeita. O importante pra mim foi priorizar a qualidade do estudo e entender a importância do repouso. A literatura foi uma grande aliada nos momentos em que eu sabia que precisava relaxar.

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Você já sabe onde será a final internacional em 2018?

ARTHUR

Ainda não foi divulgado, mas será em algum dos seguintes países: Bélgica, Croácia, França, Noruega, Romênia, Eslovênia, Espanha, Suécia ou Polônia.

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Quais são seus planos a partir de agora?

ARTHUR

Atualmente estou gravando meu primeiro disco de violão solo com arranjos e adaptações minhas de peças brasileiras. Será um disco que explorará Choros, Sambas, Bossas Novas e Baiões. Dialogando com compositores do século XIX, XX e também abarcando compositores atuais. A ideia é fazer um panorama da música brasileira através das lentes do violão solo. O CD está sendo dirigido por Ulisses Rocha, e gravado por Vitor Loureiro. Meu foco durante os próximos meses será terminar a gravação e lançar o CD.

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VÍDEO

Interpretação de Arthur Endo baseada no arranjo de Raphael Rabello da música Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

www.youtube.com/watch?v=Ya9nbigByjI